Sou contra cotas, não sou contra minorias (se é que são minorias). Reconheço que existem injustiças na sociedade, mas não é com contrapeso que se equilibra a balança de forma justa. Entendo que as políticas afirmativas podem vir a diminuir desigualdades. Mas acredito que são a maneira mais preguiçosa de (não) se resolver os problemas perpetuados pela história.
Qualquer forma de tentar resolver desigualdades tem dois gumes. As variáveis custo, tempo, efeitos colaterais, popularidade estão sempre na mesa na hora de decidir. E político costuma decidir pelo mais fácil, que normalmente não é o eficaz. E os "integrados", favorecidos e menos críticos acabam embarcando e engrossando o coro dos defensores dessas políticas controversas.
O que eu quero dizer é que as política de cotas raciais são melhor que nada e pior que todo o resto. Se não, vejamos. Eu tenho um contingente de 50% de uma população que está representada em menos de 1% em determinada esfera social. Vamos usar o serviço público, para usar um tema atual. Com uma canetada eu aumento para 20% a quantidade de negros que entram no serviços público por meio de concurso. Se a razão dessa desigualdade fosse meramente a discriminação (ou seja, o papel do concurso fosse preconceituoso), o problema seria reduzido, mas nada seria mudado (o papel continuaria sacaneando os negros).
Mas se a razão for uma desigualdade econômica histórica que dificulta o acesso do negro à educação de qualidade e consequentemente a bons empregos gerando um ciclo vicioso, aparentemente isso seria um estopim para a mudança. Mas é um estopim fraco que provoca mudanças muito rápidas no curto prazo mas de alcance reduzido. A geração atual de negros teria sua proporção no serviço público elevada de 1% para até 21%, tão logo 100% dos servidores se aposentassem. Os que fossem beneficiados e teriam a oportunidade de dar melhor educação para seus filhos.
Na geração seguinte (20 a 30 anos depois), mantida a cota de 20%, alguns negros, filhos de concursados teriam condição de disputar de igual para igual com os não negros que tiverem acesso à boa educação. Isso não elevará a proporção de negros no serviço público a muito mais que os mesmos 21%. Isso porque nem todos esses filhos disputarão um concurso público, nem todos os que disputarem terão condições de passar e os que tiverem condição dividirão as vagas em condições de igualdade com os não negros que tiverem as mesmas condições. Sendo que aqueles que não passarem terão chances maiores de ocuparem as vagas de cotistas do que aqueles que não tiveram pais cotistas. E aí virão mais 20 anos a 30 anos de atraso e um acréscimo minimo na proporção de negros no serviço público.
Estenda esse raciocínio para as universidades públicas e será fácil perceber que lá o efeito é ainda mais reduzido e demorado. E a soma dos 20% de servidores com os 20% de universitários não chegará nem perto de 40%, pois as chances de um universitário cotista ocupar uma vaga de cotista no serviços público são bem grandes. Sem falar no desserviço à meritocracia que esse tipo de politica gera.
Mas ninguém ganha com o sistema de cotas? Ganha, sim. Os 20% que tiverem a felicidade de passar por meio do sistema e suas família. Mas se considerarmos que boa parte dos que passam nessas vagas também teriam condições de passar sem cotas, bastando estudar uns anos mais (afinal, existem negros com condições de dar boa educação a seus filhos), o ganho nem chega a ser tão grande. Ah, e tem mais! Ganham os gênios políticos que lançaram essa ideia barata, pois o resultado imediato chega a tempo da próxima eleição.
Se, por outro lado, houvesse combate à desigualdade por meio de investimentos em educação, os resultados levariam cerca de 20 anos para aparecer (cinco eleições). Mas, a partir daí, estariam criadas as condições para que, por méritos próprios, os negros (ou qualquer minoria) achegasse ao serviço público ou à universidade sem necessidade de cotas. Se o investimento necessário chegasse a 100% das escolas públicas, já nos primeiros 20 anos, 100% dos matriculados teriam condições quase iguais de competir por uma vaga. Provavelmente teríamos uma proporção de 50% de vagas ocupadas por negros (bem maior que os quase eternos 20% do sistema de cotas). O resultado não seria imediato, mas quando chegasse seria duradouro e libertador.
Ainda que o investimento chegasse a apenas 50% das escolas públicas, em 20 anos já teríamos mais de 50% da população negra disputando vagas de igual para igual com os não negros. Seria provável que algo em torno de 33% das vagas seriam ocupadas por negros, o que já é maior que os 20% da cota do serviço público. Os filhos desse negros teriam condições de abrir mão do sistema público de ensino e aumentar a proporção de negros com chances de aprovação na geração seguinte.
É claro que os números não são exatos, a realidade é mais complexa e essa ideia é cara. Ainda assim é fácil perceber que o sistema de cotas é uma saída preguiçosa, e pouco eficiente para diminuir desigualdades. Para piorar, a patrulha do politicamente correto intimida os que desejam mostrar as falácias das políticas afirmativas compensatórias. É uma pena...