26 de dez. de 2014

Fim do embargo: ganha o povo, perde o governo

Com o anúncio da retomada das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, muito já se especula sobre o fim do embargo econômico à ilha. É uma consequência natural, ainda que desarmar o arcabouço legal que resulta no embargo possa levar bem mais tempo que o desejado por Obama. Alheios a isso, defensores e detratores do regime castrista cantam vitória sem observar as reais consequências do fato.

Nenhum prognóstico é definitivo. Nem mesmo o fim do embargo é certo. E quando vier a acontecer, ainda restará saber como o governo cubano irá tratar o comércio internacional. Não custa lembrar que, no Brasil, aqueles que defendem o regime castrista, também defendem uma menor abertura das fronteiras tupiniquins ao capital internacional, quase um auto embargo. Mas parece provável que o fim do embargo norte-americano a Cuba terá dois efeitos práticos: a melhoria da qualidade de vida do povo cubano e a perda de importância geopolítica da ilha.

Independente do nível de abertura, a tendência é que o aumento do comércio tenha reflexos na qualidade de vida da população. Os mais liberais dirão que o crescimento do comércio não terá um reflexo tão grande na qualidade de vida se o regime continuar interferindo de forma pesada na economia. Os socialistas dirão que só haverá melhoria na qualidade de vida se o Estado combater a desigualdade. De uma forma ou de outra, haverá melhoria (pequena ou grande, mas haverá). As políticas de estado é que vão determinar a proporção do reflexo do aumento do comércio na economia popular. A receita? Não me atrevo a abrir o debate neste fórum. É pedir para apanhar dos radicais.

Mas a ilha deve perder relevância política. Ainda que (oficialmente) Cuba seja a principal economia do Caribe, não é isso que a faz aparecer no noticiário internacional. A América Central como um todo responde por menos de 2% do PIB das Américas e Cuba é responsável por menos de 20% desse total. A relevância que Cuba tem hoje não se deve a sua economia, mas por ser um estranho no ninho. Deve-se ao fato de ser um país vizinho aos EUA que não tem (ou não tinha) relações diplomáticas e econômicas com eles. Deve-se ao encanto da luta de Davi contra Golias. Com a retomada do diálogo, Davi continuará sendo Davi e Golias continuará sendo Golias, mas sem um constante risco de conflito. O que faz Davi voltar a ser um pastor.


Com o fim do embargo, o interesse mundial naquilo que declaram os irmãos Castro e seus sucessores será cada vez menor. A não ser que eles caminhem na contra-mão do que tanto comemoraram. Não que esse menor interesse seja ruim. É bem melhor que a situação atual. É claro que o crescimento da economia cubana levará a um consequente aumento de sua importância geopolítica. Sua localização no Mar do Caribe e sua proximidade com a Flórida são uma bela vantagem comercial e estratégica. Mas esse fato sozinho não é certeza de sucesso. Basta dar uma olhadinha na situação do Haiti e da República Dominicana.

19 de nov. de 2014

Sobre notas e verdades inquietantes

Lendo a coluna Painel (Folha de S. Paulo) de hoje (19/11/2014), encontrei as seguintes notas:

Lupa - Michel Temer recebeu Henrique Alves (RN) e Eduardo Cunha (RJ) na segunda-feira na Vice-Presidência para discutir o impacto da nova fase da Operação Lava Jato sobre o PMDB. Passaram horas lendo o inquérito.

Eu não - O nome de Fernando Soares, o Fernando Baiano, surgiu mais de uma vez na conversa dos peemedebistas. O receio é que o lobista, preso ontem, detalhe suas ligações com o partido. Cunha e Alves negaram qualquer relação com Baiano.

Mesmo saco - Já a oposição, em reunião ontem, decidiu defender a convocação dos executivos presos na Lava Jato para tentar se distanciar do escândalo. O temor é que a crise resvale em PSDB e DEM, que também receberam doações das empreiteiras.”

Está bem claro. O PMDB do governo e PMDB da oposição (se é que isso existe) com “receio” que as ligações de um lobista sejam detalhadas. Os maiores partidos da oposição (PSDB e DEM) com “temor” que a crise gerada por um esquema de corrupção “resvale” em seus quadros. PT, PMDB e PP já tem quadros formalmente citados nas denúncias e delações.

Vamos supor que os líderes de algum desses partidos coloquem os interesses do Brasil acima dos interesses partido. Ou ao menos que queiram honrar o nome do partido ao qual decidiu filiar-se. Como agiria esse líder numa situação em que surgem suspeitas de corrupção envolvendo seus quadros? Seria ingênuo acreditar que esse líder imaginário abriria uma investigação interna para limpar o partido, independente do andamento das investigações dos órgãos estatais? Ou é mais ingênuo acreditar que esse líder existe em qualquer dos partidos atuais?

Ideologia? Só faria sentido se servisse para melhorar o ser humano ou a humanidade. Não serve para justificar meios ilegais de chegar ou manter-se no poder. Se para defender uma ideologia alguém aceita receber uma contribuição ilegal, ou a ideologia é ruim ou o partidário dela não merece ser defendido por seus pares. No fundo, o que acontece em todos os partidos é que os interesse dos cacique pelo poder é muito mais forte que qualquer demonstração de honestidade de seus simpatizantes.

É por isso que me recuso a defender um partido e me irrito com a subserviência de quem assim o faz. Já votei pensando em programa ideológico de um partido, mas os fatos me convenceram que esse tipo de pensamento funciona mais como cabresto eleitoral. Chega a ser ridículo ver gente inteligente caçando conspirações para se convencer que seu partido não fez o mal. Deveriam cobrar que seu partido apurasse a denúncia. Se agissem assim, provavelmente não permaneceriam apoiando o tal partido por mais que um ano. Hoje, meu voto é guiado pelo momento e não por siglas. Como, no Brasil, não há a figura do candidato independente...


É obvio que não dá para tomar como verdade tudo o que é publicado nos jornais, principalmente em colunas de notas. Muitas vezes os colunistas são utilizados, com ou sem anuência desses, para soltar um balão de ensaio ou para desafetos destilarem veneno contra adversários. Mas quando um comportamento é recorrente e o histórico dos citados combina com o conteúdo da nota, é mais fácil dar crédito ao repórter e a sua fonte. Quase sempre, esse é o caso na política brasileira. Em todos os partidos.

24 de set. de 2014

Marxismo brasileiro: jaboticaba ou ópio

Não me incomodam as ideias marxistas. Me incomodam as contradições e a recusa dos admiradores em reconhecê-las. Fui encantado pela esquerda na juventude, mas não resisti evidências históricas de que o socialismo e todos os “ismos” associados não cumprem suas promessas. E a partir do momento que me livrei das amarras de ser obrigado a defender uma ideologia, vi o quão absurdas são suas contradições.

Como criticar a ditadura militar e, ao mesmo tempo, defender regimes ditatoriais de esquerda? Como defender os direitos humanos e fechar os olhos às prisões arbitrárias e torturas em países socialistas? Como gritar por liberdade de expressão e defender controle da mídia? Como criticar os erros de José Sarney na economia e aplaudir Cristina Kirchner? Como vociferar contra a homofobia no Brasil e calar-se para a perseguição promovida pelo Estado em países de orientação marxista? Como criticar a corrupção e defender o caixa-dois? Como pedir menos impostos e exigir mais Estado? Como criticar a desigualdade e reclamar quando o salário mínimo sobe mais que a inflação e mais pessoas passam a ganhar o mínimo? O que a dialética marxista propõe como síntese das contradições socialistas?

O pior é que, no lugar de reconhecer a crítica àquilo que vai contra suas próprias ideias, os defensores desses regimes atacam regimes liberais que cometem os mesmos erros (e realmente cometem), no mais refinado modelo mental “rouba, mas faz”. É como se dissesse: “mata, mas é justo”, “prende, mas distribui riquezas”, “rouba, mas quem não rouba”? O que é mais grave, afinal? A privação da vida, ou as privações que só sofrem quem tem vida? A privação da liberdade ou as privações que só tem quem tem liberdade? A escala de valores muda de acordo com a cor do bottom de quem pratica um crime? Ou basta rotular alguém de neoliberal (nunca liberal), reaça, coxinha (até hoje não há consenso sobre o significado desse adjetivo), vendido, burguês e afins para ter licença de sair do debate?

Como acreditar que só no Brasil (logo aqui?) um regime de inspiração marxista vai deixar de cometer os erros que são cometidos sob a mesma inspiração nas dezenas de nações que abraçaram e ainda abraçam a “ditadura do proletariado”? Seria o socialismo brasileiro uma jaboticaba ou é o mesmo ópio que Marx criticou na religião ao parafrasear Hegel. Nem esquerda, nem direita. Apenas coerência.

26 de jul. de 2014

O que não é democracia

É comum que pessoas e instituições apropriem-se do significado das palavras chegando ao ponto de modificar seu sentido. Isso é mais comum ainda na política. Palavras como "esquerda" e "direita" são utilizadas por diferentes atores políticos carregadas de significado diferentes do original. Não se trata de uma evolução linguística, mas de uma apropriação ideológica com a finalidade de convencer os outros de que a visão de mundo do oponente é desumana ou intrinsecamente "má". É como a extrema esquerda dizendo que é de direita aquele que é ligeiramente menos radical (se é que ainda existe esquerda e direita).

Para atingir esse objetivo, atribui-se a uma palavra significados que não fazem parte dela, ou com os quais guardem uma relação muito tênue. O objetivo aqui é transferir para uma linha de pensamento virtudes inquestionáveis. Quantos ocidentais seriam capazes de defender em público que a democracia é ruim? Logo, dizer que algo é "democrático" reveste esse objeto de uma aura constrangedora para seus opositores.

Na luta contra os governos militares no Brasil, as esquerdas aproximaram os significados de "direita" e "ditadura". Pintaram o capitalismo como conservador e antidemocrático. Como se não existissem ditaduras marxistas ou democracias liberais. Como se o liberalismo não tivesse surgido como oposição ao conservadorismo monárquico. E como se aqueles governantes estivessem reduzindo a participação do Estado na economia.

Quando um politico defende seu projeto como uma iniciativa democrática ele quer, na verdade, colocar um adesivo "não democrático" naquelas pessoas que forem contra. Para isso, basta substituir uma expressão qualquer por "democrático". "Diversidade" talvez seja a palavra mais substituída. Quando se cria um projeto que favorece a diversificação de etnias ou gêneros em um espaço, rarissimamente se ouve que a iniciativa diversifica as etnias ou os gêneros naquele meio. Diz-se que ela é democrática. Mas diversificar não é necessariamente democratizar. Numa comunidade em que predomina um tipo X, diversificar pode ser privilegiar grupos minoritário.

O mesmo ocorre com a participação política direta, e não por meio de representantes. Em geral todas as iniciativas que se aproximam da democracia direta são ditas "democráticas" enquanto as que se aproximam da democracia indireta são vistas como "antidemocráticas" (como se a democracia indireta não fosse democracia). Ora, quem é o cidadão comum, trabalhador, que tem tempo para passar horas ouvindo propostas, lendo projetos, debatendo ideias e votando textos? Não estaria a dita "democracia participativa" privilegiando os mais "desocupados"? Ou abrindo espaço apenas para aqueles cujos interesse econômicos sejam tão grandes que justifiquem sua presença no espaço de decisão?

A democracia direta levada ao extremo privilegia ou afasta o poder do cidadão médio? Em uma sociedade em que a se trabalha até 44 horas semanais, a forma de exercer o poder que abre consultas constantemente ou cria fóruns de decisão aos montes aproxima-se mais da democracia (poder de todos) ou da aristocracia (poder dos "melhores")?

Eleição, justiça social, liberdade de expressão, transparência, acesso a educação... nada disso é exclusivamente democrático. Um monarca absolutista pode proporcionar tudo isso a seus súditos. Podem ser características desejáveis e que ajudam a fortalecem a democracia. Mas nem toda eleição acontece em um ambiente de democracia. A democracia pode não ser suficiente para proporcionar justiça social. Usar a liberdade de expressão para defender um poder absolutista definitivamente não favorece a distribuição do poder. E é questionável uma educação pouco tolerante e plural na construção de uma nação democrática.

Questiono até o uso da palavra "democrático". Ela é um adjetivo próprio de um regime político. O uso para adjetivar uma nação é extremamente complexo. Evidência disso é que organizações internacionais que monitoram a democracia no mundo criam sistemas tão complexos quanto contraditórios. Evitam dizer que um país é plenamente democrático e criam diferentes réguas para cada aspecto que julgam ser relevantes para a democracia (democracia política, democracia econômica, democracia social, democracia racial...).

Ocorre que cada régua acaba dizendo mais respeito àquilo que o avaliador imagina que é a democracia ideal. Qualquer definição que vá além da etimológica, "poder de todos" (em oposição a aristocracia, "poder dos melhores"), precisa de um adjetivo restringindo seu significado (democracia direta, democracia indireta, democracia participativa, democracia liberal).

Por isso, muitas iniciativas diferentes, até mesmo contraditórias, pode ser ditas "democráticas". Uma eleição direta é uma forma de democracia. Logo, o voto direto é democrático. Mas uma eleição indireta também é democrática. E é questionável o caráter democrático do governo de um "ditador eleito", ou seja, um governante que conquistou o cargo e ampliou seus poderes a níveis absolutistas por meio de sucessivas eleições.

Melhor ampliar o vocabulário e colocar os pingos os "is". Democracia é o povo exercendo o poder. E ainda não pensaram em uma forma melhor de distribuir esse poder do que o clássico "uma pessoa, um voto".  Democracia é votar e poder ser votado.

15 de abr. de 2014

Perda (e apropriação) de identidade

Mostre-me sua foto de perfil e eu te direi quem és! Acho que as pessoas deveriam pensar nisso antes de escolher sua foto nas redes sociais. Não digo escolher se fica melhor de perfil ou de frente, posando ou natural. Falo daquelas pessoas que colocam como sua identificação uma foto que não seja a sua. Ainda dou um desconto para a tal foto de capa do Facebook.  Ali ainda dá para viajar um pouco (uma imagem que você acha bonita, uma imagem que identifique o time do coração (ainda que isso já demonstre algum grau de fanatismo), um foto da qual está orgulhoso de ter feito... Mas na foto que identifica você em todas as situações...

Até entendo aqueles que por uma semana ou duas trocam sua foto em prol de uma causa. Uma campanha, uma brincadeira, luto, até uma caricatura. Passou disso, já começo a fazer leituras. Até uma foto de casal, quando fica muito tempo já me dá impressão que falta alguma personalidade, ou a relação é de dependência para um dos dois. Uma mãe que fica anos com a foto dos filhos me faz questionar se ela abriu mão da sua própria vida em função dos filhos (nada contra, só não sei se ela tem a consciência disso).

Mas tem coisa que é muito esquisita. Uma mulher com a foto do Papa João Paulo II: será que essa pessoa tem capacidade para criticar e questionar o que encontrar de errado na sua religião? "Para que criticar? Minha religião é a única certa!" (...) Um sujeito que usa a foto do carro da namorada (é sério! Eu conheço a figura). Quando eu vi a primeira vez, pensei: se esse realmente for o carro da namorada esse sujeito é um aproveitador. E era (o carro era da namorada, e o sujeito, um vagabundo aproveitador).

Não critico a admiração dessas pessoas por algo ou alguém. Eles tem todo o direito de querer, crer e desejar o que quer que seja. Eu também tenho minhas preferências. Mas abrir mão de sua identidade, sua personalidade em função de uma pessoa, causa ou desejo é algo que me assusta. Coloque a foto na linha do tempo, ou no álbum, mas na foto do perfil, não. Se não quer mostrar a fuça, saia da rede social. Mas se quer ser visto e reconhecido, mostre a SUA cara, não aquilo que quer que os outros acreditem que é. E lembre-se: quando a imagem não é sua, ela fala mais sobre você do que você pensa. E nem sempre é o que você queria falar...

11 de abr. de 2014

Era uma vez...

Era uma vez Você. Você trabalha duro todos os dias da semana para construir uma casa. A cada quatro anos, sempre na primavera, é necessário fazer uma reforma no imóvel. Você avalia o imóvel, decide o que não precisa ser alterado, o que precisa ser mexido de leve e o que deve ser colocado abaixo e reconstruído.
A cidade que você mora tem muita gente honesta, trabalhadora, mas também tem muito oportunista, mau caráter mesmo. Esses ficam procurando oportunidade de levar para si parte do fruto do trabalho que Você realiza.

Numa das reformas, Você encontra-se diante de um dilema. A entrada principal da casa, voltada para o norte, que era fechada por dois grandes vidros temperados, ficará desprotegida por algumas semanas, pois um dos vidros quebrou e só ficará pronto em dois meses devido ao seu tamanho. O fato é que com apenas um dos vidros Você terá que decidir qual dos lados da entrada, nascente (à esquerda de quem entra) ou poente (à direita), ficará perfeitamente protegido e qual ficará com uma proteção improvisada.

Para aumentar o dilema, Você fica sabendo que circulam na região dois bandidos com características muito curiosas: são especialistas em invadir imóveis em reforma e são extremamente supersticiosos. Nenhuma casa da região que tenha sido reformada nos últimos anos escapou da invasão desses dois. Por isso são bem conhecidos e identificados pelas suas iniciais: AQ e RA.

AQ é um bandido relativamente novo na região. Está agindo no bairro há quatro anos depois de percorrer diversas outras regiões praticando pequenos delitos, principalmente em hospitais e vestiários de centros esportivos. Depois de chegar ao bairro atual, resolveu se instalar, principalmente depois que outros marginais que agiam na região, incluindo RA, foram retirados de cena. Ainda que não o tenha prendido, polícia já traçou um perfil de AQ.

A primeira característica é que ele tem uma grande superstição: só entra em casas cuja brecha esteja na metade da casa voltada para o nascente. Outra característica e sua falta de habilidade em ir direto ao que precisa ser "resolvido", ou seja, roubado. Por isso, a medida em que ele entra no imóvel, vai deixando tudo bagunçado: suja a casa, destrói móveis (inclusive o piso), espalha documentos, remédios, até dinheiro ele já deixou pelo caminho. Assim que um investigador entra na casa e vê toda a desordem, já sabe que aquilo é obra de AQ.

Já RA andava sumido. Depois de quase quatro anos roubando, a polícia chegou a prender RA. Mas usando de artimanhas jurídicas, RA conseguiu ser solto e há informações que ele está voltando a ativa, com o apoio de outros bandidos como o coronel JR e ex-borracheiro e ex-pedreiro LE, marginais muito experientes. Dizem por aí que JR foi o grande mentor de RA.

A polícia diz que foi complicado prender RA. Ele era tão cuidadoso nas suas ações que, se não fossem câmeras de segurança, seria quase impossível saber que ele praticava os roubos. Ele praticamente deixava a casa mais arrumada do que ele havia encontrado. Há quem diga que, para passar o tempo, chegou a consertar aparelhos que antes estavam quebrados nas casas invadidas. Dizem que é por causa de sua formação em engenharia elétrica. Ah! E ele também é supersticioso: só invade casas onde a brecha esteja na metade da casa banhada pelo poente.

Ciente dessas características e certo que um desses marginais não deixarão de invadir sua casa, já que ficará desguarnecida por um bom tempo Você praticamente terá que eleger um desses dois para roubar a sua casa. Isso porque o vidro existente só protegerá um lado da entrada de sua casa (poente ou nascente). Fatalmente o lado direito ou o lado esquerdo será entrada de um dos dois. Outra possibilidade seria que entrasse antes um ladrão desconhecido, ou quem sabe uma alma caridosa que só fique cuidando do imóvel. Mas a chance de algo assim acontecer é muito pequena.

Qual será a escolha que Você fará? Deixará a entrada livre para a esquerda de quem entra e terá sua casa, além de roubada, completamente destruída? Ou deixará um flanco pela direita, tendo certeza que será roubado, mas que ao menos, ao entrar em casa, não verá aquela bagunça toda e ainda correndo o risco de que a parte elétrica do seu carro seja, enfim, consertada?

O vidro novo chegará entre os dias cinco e vinte e seis de outubro. Até lá, Você tera que fazer essa difícil escolha. Qual será a Sua decisão?

PS: Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência.