Não me incomodam as ideias marxistas. Me incomodam as contradições e a recusa dos admiradores em reconhecê-las. Fui encantado pela esquerda na juventude, mas não resisti evidências históricas de que o socialismo e todos os “ismos” associados não cumprem suas promessas. E a partir do momento que me livrei das amarras de ser obrigado a defender uma ideologia, vi o quão absurdas são suas contradições.
Como criticar a ditadura militar e, ao mesmo tempo, defender regimes ditatoriais de esquerda? Como defender os direitos humanos e fechar os olhos às prisões arbitrárias e torturas em países socialistas? Como gritar por liberdade de expressão e defender controle da mídia? Como criticar os erros de José Sarney na economia e aplaudir Cristina Kirchner? Como vociferar contra a homofobia no Brasil e calar-se para a perseguição promovida pelo Estado em países de orientação marxista? Como criticar a corrupção e defender o caixa-dois? Como pedir menos impostos e exigir mais Estado? Como criticar a desigualdade e reclamar quando o salário mínimo sobe mais que a inflação e mais pessoas passam a ganhar o mínimo? O que a dialética marxista propõe como síntese das contradições socialistas?
O pior é que, no lugar de reconhecer a crítica àquilo que vai contra suas próprias ideias, os defensores desses regimes atacam regimes liberais que cometem os mesmos erros (e realmente cometem), no mais refinado modelo mental “rouba, mas faz”. É como se dissesse: “mata, mas é justo”, “prende, mas distribui riquezas”, “rouba, mas quem não rouba”? O que é mais grave, afinal? A privação da vida, ou as privações que só sofrem quem tem vida? A privação da liberdade ou as privações que só tem quem tem liberdade? A escala de valores muda de acordo com a cor do bottom de quem pratica um crime? Ou basta rotular alguém de neoliberal (nunca liberal), reaça, coxinha (até hoje não há consenso sobre o significado desse adjetivo), vendido, burguês e afins para ter licença de sair do debate?
Como acreditar que só no Brasil (logo aqui?) um regime de inspiração marxista vai deixar de cometer os erros que são cometidos sob a mesma inspiração nas dezenas de nações que abraçaram e ainda abraçam a “ditadura do proletariado”? Seria o socialismo brasileiro uma jaboticaba ou é o mesmo ópio que Marx criticou na religião ao parafrasear Hegel. Nem esquerda, nem direita. Apenas coerência.