15 de abr. de 2014

Perda (e apropriação) de identidade

Mostre-me sua foto de perfil e eu te direi quem és! Acho que as pessoas deveriam pensar nisso antes de escolher sua foto nas redes sociais. Não digo escolher se fica melhor de perfil ou de frente, posando ou natural. Falo daquelas pessoas que colocam como sua identificação uma foto que não seja a sua. Ainda dou um desconto para a tal foto de capa do Facebook.  Ali ainda dá para viajar um pouco (uma imagem que você acha bonita, uma imagem que identifique o time do coração (ainda que isso já demonstre algum grau de fanatismo), um foto da qual está orgulhoso de ter feito... Mas na foto que identifica você em todas as situações...

Até entendo aqueles que por uma semana ou duas trocam sua foto em prol de uma causa. Uma campanha, uma brincadeira, luto, até uma caricatura. Passou disso, já começo a fazer leituras. Até uma foto de casal, quando fica muito tempo já me dá impressão que falta alguma personalidade, ou a relação é de dependência para um dos dois. Uma mãe que fica anos com a foto dos filhos me faz questionar se ela abriu mão da sua própria vida em função dos filhos (nada contra, só não sei se ela tem a consciência disso).

Mas tem coisa que é muito esquisita. Uma mulher com a foto do Papa João Paulo II: será que essa pessoa tem capacidade para criticar e questionar o que encontrar de errado na sua religião? "Para que criticar? Minha religião é a única certa!" (...) Um sujeito que usa a foto do carro da namorada (é sério! Eu conheço a figura). Quando eu vi a primeira vez, pensei: se esse realmente for o carro da namorada esse sujeito é um aproveitador. E era (o carro era da namorada, e o sujeito, um vagabundo aproveitador).

Não critico a admiração dessas pessoas por algo ou alguém. Eles tem todo o direito de querer, crer e desejar o que quer que seja. Eu também tenho minhas preferências. Mas abrir mão de sua identidade, sua personalidade em função de uma pessoa, causa ou desejo é algo que me assusta. Coloque a foto na linha do tempo, ou no álbum, mas na foto do perfil, não. Se não quer mostrar a fuça, saia da rede social. Mas se quer ser visto e reconhecido, mostre a SUA cara, não aquilo que quer que os outros acreditem que é. E lembre-se: quando a imagem não é sua, ela fala mais sobre você do que você pensa. E nem sempre é o que você queria falar...

11 de abr. de 2014

Era uma vez...

Era uma vez Você. Você trabalha duro todos os dias da semana para construir uma casa. A cada quatro anos, sempre na primavera, é necessário fazer uma reforma no imóvel. Você avalia o imóvel, decide o que não precisa ser alterado, o que precisa ser mexido de leve e o que deve ser colocado abaixo e reconstruído.
A cidade que você mora tem muita gente honesta, trabalhadora, mas também tem muito oportunista, mau caráter mesmo. Esses ficam procurando oportunidade de levar para si parte do fruto do trabalho que Você realiza.

Numa das reformas, Você encontra-se diante de um dilema. A entrada principal da casa, voltada para o norte, que era fechada por dois grandes vidros temperados, ficará desprotegida por algumas semanas, pois um dos vidros quebrou e só ficará pronto em dois meses devido ao seu tamanho. O fato é que com apenas um dos vidros Você terá que decidir qual dos lados da entrada, nascente (à esquerda de quem entra) ou poente (à direita), ficará perfeitamente protegido e qual ficará com uma proteção improvisada.

Para aumentar o dilema, Você fica sabendo que circulam na região dois bandidos com características muito curiosas: são especialistas em invadir imóveis em reforma e são extremamente supersticiosos. Nenhuma casa da região que tenha sido reformada nos últimos anos escapou da invasão desses dois. Por isso são bem conhecidos e identificados pelas suas iniciais: AQ e RA.

AQ é um bandido relativamente novo na região. Está agindo no bairro há quatro anos depois de percorrer diversas outras regiões praticando pequenos delitos, principalmente em hospitais e vestiários de centros esportivos. Depois de chegar ao bairro atual, resolveu se instalar, principalmente depois que outros marginais que agiam na região, incluindo RA, foram retirados de cena. Ainda que não o tenha prendido, polícia já traçou um perfil de AQ.

A primeira característica é que ele tem uma grande superstição: só entra em casas cuja brecha esteja na metade da casa voltada para o nascente. Outra característica e sua falta de habilidade em ir direto ao que precisa ser "resolvido", ou seja, roubado. Por isso, a medida em que ele entra no imóvel, vai deixando tudo bagunçado: suja a casa, destrói móveis (inclusive o piso), espalha documentos, remédios, até dinheiro ele já deixou pelo caminho. Assim que um investigador entra na casa e vê toda a desordem, já sabe que aquilo é obra de AQ.

Já RA andava sumido. Depois de quase quatro anos roubando, a polícia chegou a prender RA. Mas usando de artimanhas jurídicas, RA conseguiu ser solto e há informações que ele está voltando a ativa, com o apoio de outros bandidos como o coronel JR e ex-borracheiro e ex-pedreiro LE, marginais muito experientes. Dizem por aí que JR foi o grande mentor de RA.

A polícia diz que foi complicado prender RA. Ele era tão cuidadoso nas suas ações que, se não fossem câmeras de segurança, seria quase impossível saber que ele praticava os roubos. Ele praticamente deixava a casa mais arrumada do que ele havia encontrado. Há quem diga que, para passar o tempo, chegou a consertar aparelhos que antes estavam quebrados nas casas invadidas. Dizem que é por causa de sua formação em engenharia elétrica. Ah! E ele também é supersticioso: só invade casas onde a brecha esteja na metade da casa banhada pelo poente.

Ciente dessas características e certo que um desses marginais não deixarão de invadir sua casa, já que ficará desguarnecida por um bom tempo Você praticamente terá que eleger um desses dois para roubar a sua casa. Isso porque o vidro existente só protegerá um lado da entrada de sua casa (poente ou nascente). Fatalmente o lado direito ou o lado esquerdo será entrada de um dos dois. Outra possibilidade seria que entrasse antes um ladrão desconhecido, ou quem sabe uma alma caridosa que só fique cuidando do imóvel. Mas a chance de algo assim acontecer é muito pequena.

Qual será a escolha que Você fará? Deixará a entrada livre para a esquerda de quem entra e terá sua casa, além de roubada, completamente destruída? Ou deixará um flanco pela direita, tendo certeza que será roubado, mas que ao menos, ao entrar em casa, não verá aquela bagunça toda e ainda correndo o risco de que a parte elétrica do seu carro seja, enfim, consertada?

O vidro novo chegará entre os dias cinco e vinte e seis de outubro. Até lá, Você tera que fazer essa difícil escolha. Qual será a Sua decisão?

PS: Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência.

8 de nov. de 2013

Cota de atraso

Sou contra cotas, não sou contra minorias (se é que são minorias). Reconheço que existem injustiças na sociedade, mas não é com contrapeso que se equilibra a balança de forma justa. Entendo que as políticas afirmativas podem vir a diminuir desigualdades. Mas acredito que são a maneira mais preguiçosa de (não) se resolver os problemas perpetuados pela história.

Qualquer forma de tentar resolver desigualdades tem dois gumes. As variáveis custo, tempo, efeitos colaterais, popularidade estão sempre na mesa na hora de decidir. E político costuma decidir pelo mais fácil, que normalmente não é o eficaz. E os "integrados", favorecidos e menos críticos acabam embarcando e engrossando o coro dos defensores dessas políticas controversas.

O que eu quero dizer é que as política de cotas raciais são melhor que nada e pior que todo o resto. Se não, vejamos. Eu tenho um contingente de 50% de uma população que está representada em menos de 1% em determinada esfera social. Vamos usar o serviço público, para usar um tema atual. Com uma canetada eu aumento para 20% a quantidade de negros que entram no serviços público por meio de concurso. Se a razão dessa desigualdade fosse meramente a discriminação (ou seja, o papel do concurso fosse preconceituoso), o problema seria reduzido, mas nada seria mudado (o papel continuaria sacaneando os negros).

Mas se a razão for uma desigualdade econômica histórica que dificulta o acesso do negro à educação de qualidade e consequentemente a bons empregos gerando um ciclo vicioso, aparentemente isso seria um estopim para a mudança. Mas é um estopim fraco que provoca mudanças muito rápidas no curto prazo mas de alcance reduzido. A geração atual de negros teria sua proporção no serviço público elevada de 1% para até 21%, tão logo 100% dos servidores se aposentassem. Os que fossem beneficiados e teriam a oportunidade de dar melhor educação para seus filhos.

Na geração seguinte (20 a 30 anos depois), mantida a cota de 20%, alguns negros, filhos de concursados teriam condição de disputar de igual para igual com os não negros que tiverem acesso à boa educação. Isso não elevará a proporção de negros no serviço público a muito mais que os mesmos 21%. Isso porque nem todos esses filhos disputarão um concurso público, nem todos os que disputarem terão condições de passar e os que tiverem condição dividirão as vagas em condições de igualdade com os não negros que tiverem as mesmas condições. Sendo que aqueles que não passarem terão chances maiores de ocuparem as vagas de cotistas do que aqueles que não tiveram pais cotistas. E aí virão mais 20 anos a 30 anos de atraso e um acréscimo minimo na proporção de negros no serviço público.

Estenda esse raciocínio para as universidades públicas e será fácil perceber que lá o efeito é ainda mais reduzido e demorado. E a soma dos 20% de servidores com os 20% de universitários não chegará nem perto de 40%, pois as chances de um universitário cotista ocupar uma vaga de cotista no serviços público são bem grandes. Sem falar no desserviço à meritocracia que esse tipo de politica gera.

Mas ninguém ganha com o sistema de cotas? Ganha, sim. Os 20% que tiverem a felicidade de passar por meio do sistema e suas família. Mas se considerarmos que boa parte dos que passam nessas vagas também teriam condições de passar sem cotas, bastando estudar uns anos mais (afinal, existem negros com condições de dar boa educação a seus filhos), o ganho nem chega a ser tão grande. Ah, e tem mais! Ganham os gênios políticos que lançaram essa ideia barata, pois o resultado imediato chega a tempo da próxima eleição.

Se, por outro lado, houvesse combate à desigualdade por meio de investimentos em educação, os resultados levariam cerca de 20 anos para aparecer (cinco eleições). Mas, a partir daí, estariam criadas as condições para que, por méritos próprios, os negros (ou qualquer minoria) achegasse ao serviço público ou à universidade sem necessidade de cotas. Se o investimento necessário chegasse a 100% das escolas públicas, já nos primeiros 20 anos, 100% dos matriculados teriam condições quase iguais de competir por uma vaga. Provavelmente teríamos uma proporção de 50% de vagas ocupadas por negros (bem maior que os quase eternos 20% do sistema de cotas). O resultado não seria imediato, mas quando chegasse seria duradouro e libertador.

Ainda que o investimento chegasse a apenas 50% das escolas públicas, em 20 anos já teríamos mais de 50% da população negra disputando vagas de igual para igual com os não negros. Seria provável que algo em torno de 33% das vagas seriam ocupadas por negros, o que já é maior que os 20% da cota do serviço público. Os filhos desse negros teriam condições de abrir mão do sistema público de ensino e aumentar a proporção de negros com chances de aprovação na geração seguinte.

É claro que os números não são exatos, a realidade é mais complexa e essa ideia é cara. Ainda assim é fácil perceber que o sistema de cotas é uma saída preguiçosa, e pouco eficiente para diminuir desigualdades. Para piorar, a patrulha do politicamente correto intimida os que desejam mostrar as falácias das políticas afirmativas compensatórias. É uma pena...